ZingTruyen.Xyz

𝐕𝐀𝐋𝐔 ✓ • 𝐒𝐓𝐔𝐏𝐈𝐃 𝐖𝐈𝐅𝐄 •

7

ThaisHyuuzumaki


O dia passou e aquele sonho, ou seja lá o que foi não saiu da minha mente de forma alguma. Valentina voltou a ignorar minha existência depois que o jogo terminou e, Leo estava exausto demais para me dar atenção, tanto que ele apagou no sofá pouco tempo depois e Valentina teve que o carregar no colo até seu quarto.

Eu estou sentada na sala, minha mente ainda está uma confusão. É estranho não se reconhecer, supostamente eu me tornei uma pessoa completamente diferente do que eu era antes, supostamente eu sou perdidamente apaixonada pela pessoa que eu nunca desejei nem a amizade, supostamente nós somos felizes. Ou éramos.

Por que isso tinha que acontecer? Não queria estar passando por nada disso, nem ela merece sofrer. E não é pena, é só compaixão? Acho que sim. Os olhares tristes de Valentina mexem comigo de forma que nunca mexeu antes. Eu não entendo só... Sinto, me sinto estranha quando ela me olha como se estivesse pedindo ajuda, ou não sei. É complicado tentar entender ela, nem ao menos conversamos. Eu sei que tenho que falar com ela, ninguém quer me contar nada, dizem que eu tenho que perguntar diretamente a minha esposa.

Esposa.

Isso é tão assustador.

Ouço passos na escada e discretamente olho por cima do ombro, é ela, está coçando um olho e bocejando. Como eu tinha dito antes, Valentina parece estar cansada o tempo inteiro, eu queria entender o motivo. Ela termina de descer as escadas e apoia as mãos em sua lombar, logo curvando as costas e estalando seus ossos. Balança a cabeça, uma careta engraçada em seu rosto, seus cabelos desprendem do coque mal feito e caem em cascatas sobre seus ombros.

Por que estou olhando tanto para ela?

Quando ela olha em minha direção eu arregalo os olhos e viro para a frente, ouço ela suspirar alto, exaustão. O som de seus pés descalços colidindo com o piso ecoa pela sala de estar, a casa está silenciosa demais, é possível até mesmo ouvir os irrigadores no lado de fora. Silêncio me incomoda.

— Não está com sono?

Ela surge ao meu lado e eu quase salto com sua voz, meu coração ainda acelerado parece bater mais rápido em meu peito. Tento dizer algo mas, minha voz parece presa na garganta. Ainda estou assustada por ela ter me pego encarando-a.

— E-eu... Sim. – suspiro, apertando meus dedos no forro cor de creme que cobre o sofá. — Já vou subir.

— Não precisa subir só porque eu estou aqui, se você quiser pode assistir televisão. – ela está séria, mas sua voz sai num tom calmo, controlado, eu diria que é até simpático. — Amanhã sua irmã volta de viagem. – olho para ela curiosa, nossos olhos se cruzam e ela capta meu olhar questionador. — Ally.

Levanto as sobrancelhas e aceno com a cabeça, finalmente verei minha pequena irmã.

Isso é uma péssima piada, Luiza.

Mentira não é não, é bem engraçada na verdade.

— Onde ela estava?

— Grécia.

Meus olhos se abrem surpresos. O que raios aquela anã fazia na Grécia?

— O que ela foi fazer lá?

Valentina está usando uma calça escura de moletom, antes de se sentar ao meu lado, ela puxa o tecido um pouco para cima, depois se joga no sofá.

— Lua de mel.

Responde simples e sorri de lado. Um meio sorriso. Mas estou confusa, Ally já não é casada?

— Eu achei que ela já fosse casada.

Pelo menos foi o que Dinah me disse. Ah se aquela girafa mentiu para mim...

— Oh não, quer dizer, sim, ela já é casada. – Valentina responde sob uma risadinha sem jeito. — Troy decidiu presentear Ally com uma viagem, eles foram ter sua segunda lua de mel.

Ela explica e eu finalmente compreendo, eles foram ter uma segunda lua de mel. Wow! Isso é bem romântico. Fico encantada, e feliz por minha irmã, o casamento dela parece ser um conto de fadas.

— E meus sobrinhos?

Minha voz sai num tom completamente animado, Valentina solta uma risadinha nasal ao captar minha animação, nem me importo, estou com tanto vontade de conhecer logo os dois.

— Serena e Will? Estão com os avós, os pais de sua mãe.

— Em cuba? – questiono e Valentina assente, meus ombros caem desanimados. Queria tanto ver logo eles. — Queria conhecê-los.

Antes de abaixar a cabeça pude ver Valentina me olhar com tristeza, devia ser estranho para ela me ouvir dizer aquilo já que supostamente eu estou cansada de ver a cara dos meus sobrinhos. Mas eu não os conheço, nem em meio a todas essas fotos eu consegui reconhecê-los.

— Eles ainda não sabem sobre... – olhei para ela que gesticulava, como se buscasse palavras ou então estivesse tentando me fazer entender. — Vai ser um choque, principalmente para Serena, ela sempre foi um grude com você.

Uma vontade de chorar se instala em mim. Isso tudo é uma merda, eu sinto dor por não conseguir lembrar de nada. Como eu irei olhar para os meus sobrinhos e dizer a eles que não faço ideia de quem eles são?

Como irei olhar na cara da minha irmã e dizer que não lembro do casamento dela? Que não sei de nada sobre ela mais, que não faço ideia do que está acontece. Que não conheço seus filhos, não sei a data de aniversário deles e nem me lembro de seus nascimentos.

Isso tudo é uma merda, eu odeio essa amnésia idiota.

Estou tão revoltada e devastada que nem me dei conta do momento em que comecei a chorar, estou chorando por tudo e mais ainda por não conseguir fazer nada para reverter toda essa situação. Braços firmes envolvem meu corpo, um perfume que não me é estranho invade minhas narinas, mesmo sabendo que é Valentina ali, eu sinto que já conheço esse perfume à muito tempo. Seria isso algum tipo de lembrança?

Meus soluços são altos, Valentina me aperta mais contra seu corpo e eu me encolho em seus braços como um filhotinho de gato. Eu não precisava mais de nada além de um colo para chorar tudo que eu ainda não havia chorado nesses dias desde o fatídico dia em que acordei desmemoriada. Com certo jeito, Valentina levanta do sofá e me puxa, eu logo estou em seus braços, me agarro em seu pescoço e afundo meu rosto contra sua blusa, eu sinto ela andar comigo e apenas deixo que ela me leve.

Não tenho forças para renega-la, e nem quero na verdade.

///

Não faço ideia de quanto tempo eu passei chorando, mas sei que se passaram longos minutos, eu me sinto exausta, meus olhos ardem, meu peito ainda dói e meu nariz está entupido. Valentina não saiu do meu lado um segundo sequer, depois de me pôr deitada na cama, ela sentou com as costas recostadas na cabeceira e puxou minha cabeça para repousar em suas coxas. Ela passou o tempo todo me fazendo carinho, não disse nada, mas ficou ali, por mim.

Mesmo eu a rejeitando, mesmo eu não a merecendo. Ela estava ali.

Finalmente notei o quão incrível ela é, mas percebi também que não a mereço. Eu a faço sofrer e pode ser que eu nunca lembre de tê-la amado alguma vez.

Isso não dará certo, não é saudável para nenhuma de nós, nossa relação está fadada ao fracasso.

//

Foi a primeira noite em que dormimos na mesma cama desde que tudo aconteceu. Valentina não ultrapassou um limite sequer, e quando nos abraçamos, a única que tomou iniciativa para que isso acontecesse fui eu. Ela parecia com receio de fazer algo que eu não gostasse. Apreciei o respeito dela por mim apesar de tudo.

Ao abrir os olhos essa manhã, notei que ela já não estava na cama. Olhei por todo o quarto e como sempre a porta do closet estava meio aberta.

Ela havia saído para ir trabalhar.

Eu acho.

O perfume dela está por todo o quarto, inalo com força diversas vezes antes de ficar de pé e ir para o banheiro. Tomo um banho rápido e noto que tem uma muda nova de roupas em cima do balcão da pia. Valentina tem essa mania de separar minhas roupas. Acho que é tipo um TOC. Me visto e saio do banheiro, meus cabelos estão um pouco úmidos e eu nem me importo ao sentir que minhas costas estão começando a ficar molhadas. Tudo está um silêncio, quando Leo não está em casa tudo fica uma paz. Eu não gosto disso, é tão bom vê-lo todo saltitante pela casa.

Meu filho... Ele herdou a minha energia, por isso ele não para um segundo sequer. 

Na cozinha a mesa está posta, olho para o fogão e suspiro. A comida de Valentina não é ruim, mas eu me lembro que gostava de cozinhar. Será que perdi esse hábito?

Eu pareço ter virado uma preguiçosa, aparentemente sou sustentada por Valentina – já que ela não tocou no assunto trabalho, eu também não sei ainda no que ela trabalha. Ela faz basicamente tudo para mim, além de arrumar a casa, lavar as roupas e levar nosso filho para a escola.

Será que eu fico sem fazer nada o dia inteiro como uma madame?

Não acredito nisso.

//

Após terminar meu café da manhã, lavo as louças e organizo-as no escorredor. Me espreguiço rapidamente, sentindo meus músculos esticarem e solto um gemido manhoso. O dia está ensolarado, eu vejo o sol refletir através das janelas. Eu sei que tem uma piscina nessa casa pois eu já a vi do quarto, e hoje eu vou experimenta-la.

Corro para o segundo andar e vou até meu quarto, entro no closet e busco nas gavetas – que Valentina disse serem as minhas, algum biquíni. Logo acho diversos deles, com várias cores e tamanhos e....

— Nossa, será que isso tampa alguma coisa?

Pergunto a mim mesma enquanto analiso a calcinha vermelha de um dos biquínis, ela tem uma tira fina demais. Será que eu uso isso apenas na piscina de casa ou usava por aí? Não creio, meu rosto cora apenas ao me imaginar desfilando por aí com um biquíni minúsculo desses.

Eu não tenho mais pudores mesmo. Estou chocada comigo mesma.

Estou sozinha em casa de qualquer forma, não haverá problema algum em usar esses projetos de biquíni. Após estar devidamente vestida, vou até o espelho para me olhar e... Caramba! Meu queixo caí. Eu ainda não tinha reparado no quanto meu corpo mudou, seios grandes – e seios naturais. Minhas pernas não eram mais aquelas varetinhas de antigamente, agora elas tem massa e até parecem um pouco musculosas, meus braços também não são mais finos. Viro de costas e uau! Minha bunda também está diferente, mais redonda e durinha.

Eu sou gostosa pra caralho! Sorrio sacana para mim mesma através do espelho.

Será que eu malho agora? Porque antigamente eu era sedentária de verdade, só de pensar em me exercitar eu já ficava exausta.

///

Suspiro encantada ao me deparar com aquela espaçosa piscina. Tem um deck no final do quintal, mesmo de longe é possível ver também a churrasqueira e um pequeno bar com uma adega implantada na parede. Tem uma mesa grande de jantar também. Tiro meus chinelos e jogo a toalha que estava em meus ombros em cima de um dos divãs brancos que tem por ali, eles parecem confortáveis mas, no momento eu só quero entrar na água mesmo. Me posiciono na ponta da piscina e estico os músculos antes de flexionar um pouco as pernas e pegar impulso para saltar na água.

Morninha, uma delícia.

//

Quase uma hora depois eu saio da água pois já estou cansada, sem contar que esqueci o protetor solar e se eu não sair agora do sol provavelmente sofrerei mais tarde com queimaduras. Me enxugo e enrolo a toalha em volta de meu corpo, assim que abro a porta de vidro e piso dentro de casa, ouço a campainha tocar.

Quem deve ser?

Curiosa, seguro firme a toalha em volta de mim. Chego na porta e olho através do olho mágico. Tem um homem parado ali, quem será?

Hesito em abrir a porta, não sei quem é ele. E se Valentina não gostar que eu atenda alguém estranho quando ela não está em casa?

Camila! Pare de agir como adolescente.

Mesmo não querendo abrir a porta, destranco-a e giro a maçaneta. O tal cara está vestido de carteiro, ele é alto, branco como leite e seus cabelos são baixos, ele também tem olhos claros, castanhos bem claros. Ele abre um sorriso ao me ver, me mede de cima a baixo e eu seguro com mais força a toalha contra meu corpo.

Só o que me faltava, além de ter perdido a memória agora ser atacada por um maníaco carteiro. Eu devo ter um imã para psicopatas mesmo.

— Oi, amor. – ele diz tentando soar sedutor. Amor? Como é que é, babaca? — Não vai me convidar para entrar? Estou com saudades desse seu corpo.

Arregalo os olhos e dou um passo para trás quando ele dá um passo para frente, quase caio ao escorregar no piso um pouco molhado por causa do fato de eu ainda estar molhada. Olho horrorizada para o carteiro louco que supostamente é meu amante?

Oh meu Deus! Não pode ser! Eu tenho uma boa índole, nunca fui trapaceira em toda a minha vida.

— Sa-saí daqui seu louco!

Grito para ele e me viro para sair correndo, ele é mais rápido e me segura pela cintura com força. Engulo seco e fecho os olhos. Não é possível que eu traía Valentina, não depois de ter aceito casar com ela e ter gerado um filho com ela. Eu não posso ser tão horrível a esse ponto.

— É assim que vamos fazer hoje?

Ele sussurra em meu ouvido num tom lascivo, sinto meu estômago embrulhar e sinto que vou desmaiar. Estava prestes a reagir e dar uma cotovelada em sua barriga quando uma alta gargalhada – bem conhecida, soou pela casa. O tal louco me solta e eu abro meus olhos, giro em meus calcanhares para ver uma louca rolando – literalmente rolando no chão de tanto rir.

Estou pasma, que porra foi essa que aconteceu aqui?

— Meu-u De-us!

Dinah está rindo tanto que nem consegue falar, continuo sem entender esse circo todo. Olho para o palhaço vestido de carteiro e ele faz sinal de rendição para mim, como se dissesse que era inocente. Volto a olhar para a estúpida gargalhando no chão da sala e aperto a mandíbula.

— Que porra é essa, Dinah?!

Exijo quase espumando de raiva, eu aqui morrendo de medo e com nojo de mim por supostamente ter um amante e essa idiota rindo como se tivesse ouvido a melhor piada do mundo.

— Chancho! Chan, você precisava ter visto a sua cara.

Ela continua rindo, mas com menos intensidade. A idiota que eu chamo de melhor amiga fica de pé e tira algo de seu bolso, a carteira marrom, abre e tira de lá uma nota de cem dólares, entrega para o imbecil maníaco e diz em algo em seu ouvido, o babaca acena para mim e depois sai da minha casa, fechando a porta. Olho para Dinah que também me olha de volta, seu rosto começa a ficar vermelho e logo ela está rindo de novo.

— Eu. Vou. Matar. Você!

Digo entredentes e marcho em sua direção, Dinah começa a correr para longe de mim, mas não para de rir, nem mesmo por um segundo.

//

Minutos depois eu desisto de tentar pega-la, ela é mais rápida que eu e maior também.

— Ah, não fica com essa carinha emburrada não. – Ela senta ao meu lado e tenta me abraçar, porém me esquivo de seu abraço e a empurro. — Foi engraçado, vai, admita.

— Não vejo porra de graça nenhuma nisso, imbecil! – quase grito e fico de pé, meus nervos estão a flor da pele. Por que o simples pensamento de trair Valentina me incomoda tanto? — Eu já estava me xingando por achar que tinha virado uma puta sem coração.

Suspiro, passando as mãos pelos cabelos pouco molhados e os jogo sobre meu ombro esquerdo. Ajeito a toalha que quase caí e nego com a cabeça diversas vezes. Ouço Dinah suspirar e lamentar baixo. Pelo menos sabe que fez errado.

— Isso teria sido engraçado se sua memória estivesse okay. – sua voz é triste, viro para ela que está apertando sua mão contra a outra e me encara sem jeito. — Desculpa, mas é que era tão engraçado quando vivíamos uma perturbando a outra. 
 

— Tudo bem, Chee, eu... – fico sem saber o que falar e solto um grunhido, vou até ela e passo a mão em seus cabelos, Dinah sorri. — Isso vai ter volta.

Alerto-a e sorrio de forma maldosa, Dinah alarga o sorriso e me puxa para seu colo. Solto um gritinho de susto, caio de qualquer jeito em seu colo, a toalha desce para o meu quadril e meus cabelos úmidos estão cobrindo minha testa.

— Essa é minha garota.

Bate em minha bunda e eu pulo surpresa, acabando por rir em seguida. Não tem como ficar com raiva dessa mulher por muito tempo, ela é facilmente amável.

— Está com fome?

Pergunto e ela me ajuda a ficar de pé, ajeito a toalha em volta do meu corpo e prendo meus cabelos de qualquer formar no topo da cabeça. Para desembaraçar isso depois vai ser um Deus me ajude, deve estar igual um ninho de passarinho. Dinah também fica de pé e arruma a barra de sua saia que havia subido um pouco.

— Você ainda pergunta? Vamos lá, estou com saudade da sua comida.

— Eu ainda gosto de cozinhar?

Questiono curiosa enquanto vamos até a cozinha, vou até a geladeira e Dinah se senta em uma das cadeiras da mesa.

— Óbvio que sim, essa é sua segunda maior paixão.

Seguro a porta aberta da geladeira e olho para ela com uma sobrancelha arqueada.

— E qual é a primeira?

— Leo. – responde e eu sorrio abertamente. — E Valentina.

Completa e meu sorriso morre na hora, minha expressão passa de feliz para normal em segundos, volto a olhar dentro da geladeira e procuro alguns ingredientes para fazer algo que me agrade. No congelador encontro contrafilé, ótimo já até sei o que fazer.

— Está afim de comer filé à parrilla?

— Leva vinho, não posso.

Franzo o cenho e olho para ela através do pequeno vão entre a porta da geladeira e do freezer, Dinah tem uma careta engraçada em seu rosto porém sorri timidamente.

— Você sempre gostou de vinho, deixou de gostar? – nega com a cabeça e pressiona os lábios, tiro o contrafilé do congelador e fecho as duas portas abertas, olho intrigada para ela e resolvo arriscar: — Tem alguma coisa que você queira me contar?

— Tem! – ela exclama e batuca seus dedos na mesa. Coloco o contrafilé em cima da pia e depois em viro para olha-la. — Eu iria esperar até estar todo mundo reunido, mas você é minha melhor amiga então merece saber primeiro. – acho que já sei o que é. — Eu estou grávida!

Abre um enorme sorriso e meu queixo caí, seus olhos estão brilhando e eu continuo paralisada. Dinah está grávida. Oh. Meu. Deus.

— Você... – fecho a boca e faço alguns movimentos estranhos com a mão em busca de palavras, porém nada vem. — Cheechee! Eu vou ganhar um sobrinho novo.

Caminho até ela a passos largos, Dinah empurra a cadeira e fica de pé, abre os braços para mim e eu me afundo em seus enormes seios. Estamos sorrindo e pulando, parecemos duas crianças. Será que ela também ficou assim quando soube da minha gravidez?

Provável que sim.

— Eu estou tão feliz.

— Eu percebo, sua pele até parece mais bonita.

Nos soltamos e eu olho para ela, seus olhos estão um pouco marejados e eu acredito que seja por sua enorme felicidade. Acaricio seus braços e a balanço um pouco, para um lado e para o outro.

— Mas isso precisa ser um segredo nosso, ninguém sabe disso ainda, nem mesmo Ian.

Eu a solto e ergo minhas mãos, cruzo meus indicadores e os beijo, ela sorri e faz o mesmo. Nós costumávamos fazer isso quando mais novas, significava segredo e que não podíamos quebrar aquela promessa. Depois de muito comemorarmos, Dinah praticamente me obriga a ir preparar logo o almoço porque segundo ela meu sobrinho está com fome.

Chantagista de uma figa, nem formado ele está ainda.

Mas acato sua ordem, e logo vou em busca de temperos para a carne. Opto pelo filé tradicional com manteiga e cebolas mesmo, acompanhado por fritas e arroz branco. Enquanto ponho a carne na água para descongelar, Dinah e eu ficamos conversando sobre variados assuntos. Perguntei várias coisas a ela sobre minha vida com Valentina e sobre a mesma, mas ela sempre me cortava e dizia que eu deveria perguntar a minha esposa.

Babaca, idiota. Péssima melhor amiga essa que eu tenho.

Mas ela menos me avisou que Valentina e Leo chegariam um pouco tarde hoje já que Valentina tem jogo de vôlei todas as sextas com Normani, sua melhor amiga, e alguns amigos do trabalho. Qual trabalho? Dinah não quis me contar também.

//

Depois do almoço Dinah se prontificou a lavar a louça, pelo menos isso. Eu fiquei sentada ouvindo ela falar sobre o quão perfeito Ian é.

É engraçado ouvir ela se referir a ele como marido já que na minha mente eu ainda vejo a Dinah adolescente que babava litros pelo irmão da estúpida Buiar. E agora ali estava na minha frente, a Dinah mulher que é casada com sua crush do colegial.

A vida é engraçada, não é?

— Ian é louco para ter uma menina. Estou torcendo para que seja uma dessa vez.

Eu ri, o jeito animado que Dinah fica ao falar de seu casamento e do seu marido é fofo de se ver.

— Tomara que seja, irá deixa-lo feliz.

Ela termina de lavar as loucas e coloca-las no escorredor, pega o pano de pratos e seca suas mãos. Vira de frente para mim e anda em minha direção, puxa uma cadeira e se senta à mesa comigo.

— Sim, com toda certeza. – ela umedece seus lábios com a ponta de sua língua e me olha de uma forma esquisita. — Sabe quem mais ficaria feliz por ter uma filha?

— Oh não.

Eu já tenho uma ideia de quem ela vai falar e sinceramente não estou afim de ouvir isso.

— Oh sim, sua esposinha linda e maravilhosa. – faço uma falsa careta de nojo, nem tão falsa assim e Dinah ri. — Algumas semanas atrás você estaria saltitando e pesquisando clínicas para fazer outra inseminação. – reviro os olhos e ela estala a língua. — Chancho me diz uma coisa. – apóia seus cotovelos na mesa e chega um pouco para frente, olhando-me nos olhos. — Vocês já transaram? Quer dizer, depois de tudo o que aconteceu... Já?

Meu rosto ruboriza na hora, cenas e lembranças do vídeo que eu vi à três dias atrás invadem a minha mente. Estou morrendo de vergonha e engasgo com minha saliva, começo a tossir desesperadamente enquanto isso a idiota quase morre de tanto rir de mim.

— ... Você ficou sem graça, ou vocês transaram ou então você lembrou de alguma coisa.

— Isso não é da sua conta. – rosno para ela que nem se importa com meu tom rude. — E nós não transamos, que nojo.

Faço minha melhor cara de nojo possível, Dinah joga a cabeça para trás e ri alto. Bufo e me jogo para trás, cruzando os braços abaixo de meus seios.

— Nojo? – volta a me olhar e seca os cantos de seus olhos. — Eu que tinha que estar dizendo isso, você não sentia nojo quando me contava o quão maravilhosa Valentina é na cama, eu era obrigada a te ouvir chamar ela de Deusa do sexo.

— Você está zoando com a minha cara? – ela sorri e nega com a cabeça, salto da cadeira exasperada. — Deusa do sexo? A Valentina?

— Ela mesma. – Dinah também se levanta, ouço a cadeira sendo arrastada porém estou muito ocupada em surtar. — Chancho você pode não acreditar agora, mas é completamente louc-

— Louca está você! – a interrompo antes que ela fale mais asneiras, me recuso a ouvi-la dizer outra vez que eu sou louca por Valentina. Sou louca só se for de raiva. — Você está proibida de dizer ou brincar com uma coisa dessas, okay? É muita coisa para a minha cabeça e tudo que eu menos quero saber é que eu supostamente sou apaixonada pela estrupício. 

Olho sério para ela, que faz sinal de rendição e concorda com a cabeça. Estou com tanta raiva agora que puxo a toalha de meu corpo e saio da cozinha pisando firme. 
Depois do banho demorado, visto uma roupa refrescante e desço para me desculpar com Dinah. Ela não tem nada a ver com tudo isso, não é culpa dela a minha mente defeituosa. Ela aceita tudo numa boa, diz que me entende, apesar de eu notar claramente o quão chateada ela ficou. Fico mal, não era minha intenção magoa-la.

Agora estamos bem outra vez, estou deitada no sofá com a cabeça nas pernas dela. Estamos assistindo um reality show qualquer, Dinah disse que era um dos meus favoritos. Ele é divertido. O programa dá uma pausa e entra nos comerciais.

— Até que esse programa não é ruim.

Comento ao me sentar no sofá e esticar os músculos, olho para Dinah e ela acena com a cabeça, estalando o pescoço e boceja rápido.

— Ele é divertido. – coça a cabeça e olha para mim. — Chan, acho que vou para casa, estou me sentindo tão cansada ultimamente e daqui a pouco Toni volta da escola, eu preciso estar em casa para recebê-lo.

Seu tom de voz é culpado, sorrio para tranquiliza-la, não seria justo ficar prendendo-a aqui comigo sem motivo algum aparente.

— Está tudo bem. – a asseguro e ela fica de pé. — Vou te levar até a porta.

Ela consente e estende a mão direita para mim, entrelaço nossos dedos e caminhos juntas em direção a porta.

— Amanhã peça que Valentina te leve lá em casa para você ver o Toni. – faço beicinho e ela revisa os olhos. — Nem adianta fazer essas caretas, você nem tenta se dar bem com ela.

— Eu não quero me dar bem com ela.

Dinah bufa impaciente e me segura pelos ombros, olha diretamente em meus olhos, com tanta firmeza que sinto um arrepio subir por minha espinha.

— Pare de ser assim, vocês não estão mais no colegial. Lauren é uma mulher incrível, se permita ver isso.

Será?

//

Estou sozinha em casa outra vez, porém não por muito tempo, além do mais já anoitecendo – e provavelmente Valentina voltará com Leo em breve, Ally está vindo aqui me visitar, ficamos quase 2 horas no telefone, 1 hora e meia eu apenas ouvi ela chorar por minha causa.

Ally continuada sendo tão sentimental quando antes.

Provavelmente eu agiria da mesma forma se fosse ao contrário.

Não consigo lidar muito bem com essa televisão, as coisas estão muito diferentes do que eu me lembro. Tudo está diferente.

Literalmente.

Ouço a campainha tocar, sorrio largo pois sei quem está ali. Me levanto do sofá em um salto, puxo a barra do meu short jeans para baixo e ando a passos rápidos até a porta, eu mal giro a maçaneta e sou empurrada bruscamente para trás, logo um minúsculo ser colide seu corpo com o meu.

— Oh, Cristo!

Exclamo assustada com sua repentina invasão e pasma que ela continua do mesmo tamanho. Se passaram treze anos e Ally ainda tem tamanho de criança.

— Irmãzinha.

Ela murmura contra meu peito e sinto meus olhos marejarem, era bom demais ter minha irmã ali comigo, seria mais uma pessoa a me ajudar passar por tudo que está acontecendo. Estico um pouco o pescoço para trás e finalmente a observo, mesmo que de cima, podendo ver apenas seu couro cabeludo, noto que seus cabelos não são mais castanhos, agora eles estão num tom escuro de loiro. Ally tira a cabeça de meu peito e olha para cima, sorrio para ela e beijo sua testa. Seu rosto também está diferente, as bochechas mais gordinhas e os traços mais fortes.

— Meu Deus, que saudade, Kaki.

A aperto em meus braços e ouço ela soluçar em meu pescoço, puxo-a para dentro e fecho a porta. Com ela ainda agarrada a mim, vou andando até o sofá e me sento, puxando-a para sentar ao meu lado e continuar agarrada em mim.

... Alguns minutos depois ela finalmente se acalma, surta um pouco e pergunta se o que Troy havia lhe contado era verdade – ela me disse que Valentina havia ligado para Troy e contado sobre o que houve, também disse que havia adiantado a volta por conta disso. Senti-me mal por atrapalhar a segunda lua de mel dela, eles deviam estar se divertindo. Conto a ela por alto sobre os acontecimentos desses dias que se passaram desde que perdi minha memória, também contei que tenho uma consulta na terça-feira com o Dr. Charlie. Ally chorou algumas vezes quando eu confidenciei que não me lembrava de nada, nem de meus sobrinhos, nem de ter me casado e muito menos de ter tido Leo.

Eu queria me lembrar de como foi a sensação de tê-lo em minha barriga, de como as pessoas em volta de mim deviam me elogiar e se mostrar animadas para a chegada dele. Eu queria me lembrar até mesmo das possíveis dores do parto, eu as sentiria sem problemas se isso me fizesse ter a memória de volta. Queria saber como me senti quando o peguei nos braços pela primeira vez, quando ele disse sua primeira palavra e quando ele aprendeu a andar.

Queria me lembrar de todos os momentos que perdi sem saber, queria me lembrar da minha vida.

A nova vida.

//

Um tempo depois decidi mudar de assunto pois estava cansada de me lamentar e chorar pelo o que houve, e também não queria mais ver Ally sofrendo por mim. Sempre fomos grudadas, desde muito jovens, Sofi também era grudada conosco mas, por sermos as mais velhas, Ally e eu sempre andamos juntas. Até tomávamos banho juntas e comíamos no mesmo prato quando pequenas, ou mais jovens porque ainda continuamos pequenas.

Embora Ally seja mais pequena do que eu.

— ... Eles são incríveis, principalmente Serena, ela é completamente apaixonada por você.

Ally comentou e eu sorri abertamente, ela me mostrou algumas fotos, dos meus sobrinhos, do filho de Dinah e eu o meu Leo. Dinah não brincou quando disse que Serena gosta de mim.

— Quero muito ver eles, sempre sonhei em ter sobrinhos e agora tenho três.

Sim, três. Afinal, o filho de Dinah também é meu sobrinho já que sempre a considerei como uma irmã.

— Eu sei bem, quando Serena nasceu você ficou mais feliz do que o Troy.

— Sério?

Ally concordou rindo e eu acabei por rir também.

— Muito sério, todo mundo até brincava dizendo que Serena nasceu de mim, mas era você a verdadeira mãe.

Nós gargalhamos e continuamos conversando, Ally também foi super vaga quando eu questionava sobre minha vida com Valentina. Todos me obrigam a ter que conversar com ela.

E eu não quero isso.

Já tinha perdido a noção do tempo, Ally me contava sobre as vidas de nossos antigos colegas de classe. Muitos se deram bem na vida, e alguns hoje em dia trabalham em supermercados ou estão envolvidos com coisas erradas. Uma pena. Me senti tentada a pergunta sobre Alexandra, porém sei que Ally provavelmente me repreenderia por isso.

— ... Você tinha que ter visto, tudo virou uma guerra de bolo depois disso.

Ally estava me contando sobre o primeiro aniversário de William, ela disse que ele enfiou as mãos no bolo e depois começou a balançar as mãozinhas, sujando a mesa e o pessoal que estava em volta dela. Queria tanto me lembrar disso. Um som de carro sendo estacionado atraí nossa atenção, Ally olha em direção a porta e eu faço o mesmo, uns 2 minutos depois a porta aberta e por ela um saltitante Leo passa.

— Hoje foi o melhor jogo de todos.

Ele fala alto, animado. Sorrio por vê-lo feliz, então ela também entra... Puta merda! Meus olhos quase saltam de meu rosto, Valentina está...

Cadê as palavras que sumiram?

Ela está vestida com um justo uniforme branco, um short super colado ao seu corpo, possivelmente úmido de suor, a regata também está grudada deixando nítido seus volumosos seios, seu cabelo está preso em um rabo de cavalo e ela tem uma fita branca em sua cabeça. Meu queixo está caído.

Céus! Quando ela ficou atraente assim?

Não que ela fosse feia antigamente, mas... Seu corpo está completamente diferente, Valentina está muito mais mulher. Engulo seco, ela sorri para Leo e os dois tocam suas mãos, fazendo aquela mesma coisa com os dedos que eles sempre fazem. Valentina tira a bolsa que está em seu ombro e fecha a porta, jogando a bolsa no canto em seguida. Leo olha em direção ao sofá onde estou com Ally e sei que ele gritou alguma coisa pois vi sua boca mexendo, porém estou ocupada demais apreciando aquele ser sexy.

Qual é o meu problema?

Ela é o meu problema!

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